De cortadora de cana a gestora da EJA: educação transforma vida de mulher no interior de SP

08/03/2026 - 17:10  
De cortadora de cana a gestora da EJA: educação transforma vida de mulher no interior de SP

De cortadora de cana a gestora da EJA: educação transforma vida de mulher em São Carlos Do cortadora de cana a gestora municipal de Ensino de Jovens e Adultos (EJA), a professora Maria Alice Zacharias, de 55 anos, tem uma extensa trajetória de luta ao acesso à educação em São Carlos (SP). 📱 Siga o g1 São Carlos e Araraquara no Instagram No Dia Internacional da Mulher, comemorado neste domingo (8), o g1 traz a história de superação da educadora que transfomou a sua realidade e de várias pessoas com a alfabetização. Há 30 anos, ela se dedica voluntariamente na inclusão e conscientização dos recém-chegados ao mundo das letras. Para ela, aprender a ler e escrever vai muito além de dominar as letras, é ter autonomia. “Só quem não sabe ler entende o valor de escrever o próprio nome, de pegar um ônibus sem depender de ninguém. A educação transforma a vida de uma pessoa", disse. Maria Alice durante a formatura do magistério e na formação da primeira turma de jovens e adultos em São Carlos Arquivo pessoal Trajetória no campo e de luta Aos 9 anos de idade, Maria Alice já trabalhava. Moradora de uma fazenda na região de São Carlos, começou como babá, cuidando do filho da patroa. Pouco tempo depois, a vida no campo a levaria a enfrentar uma rotina ainda mais dura: aos 12 anos trabalhava no corte de cana na Usina da Serra, em Ibaté (SP). Filha de trabalhadores rurais, o pai era cortador de cana e a mãe colhedora de laranja, Maria cresceu em um contexto de muito esforço e poucas oportunidades. Os pais não sabiam ler nem escrever, mas sempre a incentivaram a estudar. “Eu queria ajudar financeiramente em casa e também ter alguma autonomia”, contou. A rotina era exaustiva, ela trabalhava o dia inteiro sob o sol e, à noite, seguia de caminhão para a escola. Saía às 18h, chegava em casa perto da meia-noite e, às 5 da manhã, já estava de pé novamente para mais uma jornada no canavial. O pagamento era por produção: quanto mais toneladas cortadas, maior o salário. Havia até premiações simbólicas para quem mais produzia, o “rei” e a “rainha do facão”. Maria não chegou a receber o título no canavial, mas anos depois seria eleita princesa do trabalhador em São Carlos, já atuando como diarista e funcionária do sindicato dos metalúrgicos. “Eu sempre buscava possibilidades para sair do corte de cana”, comentou. Ela fez até curso por correspondência de cabeleireira, manicure e pedicure, ainda adolescente, tentando abrir novos caminhos.Apesar dos esforços, houve um período em que precisou interromper os estudos para conciliar o sustento. Já adulta, com mais de 20 anos, voltou para a sala de aula por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Concluiu o ensino médio na modalidade e depois fez o magistério. Uma conquista que mudaria de uma vez o seu destino. Mais notícias da região: PIRASSUNUNGA: Dia da Mulher: Academia da Força Aérea forma primeira turma feminina da infantaria SÃO CARLOS: Professora une o mundo virtual aos livros em projetos de incentivo à leitura em São Carlos ARARAQUARA: Mulheres encontram amizade e apoio em grupo de leitura de autoras femininas Maria Alice (em pé, ao centro) durante curso de formação de educadores populares em São Carlos (SP) Arquivo pessoal Choque de realidade Foi durante o estágio, alfabetizando uma turma da EJA, que teve um choque de realidade. Ao ouvir as histórias dos alunos, percebeu que muitos carregavam trajetórias semelhantes à sua. “Ali eu entendi que não era só a minha história. E que eu precisava estudar para contribuir com essas pessoas, com a sociedade, e com as pessoas que estão em situação de vulnerabilidade social, e que não tiveram o seu direito à educação garantido, sabe, ao longo da sua vida toda. Minha atuação é voluntária dentro desse movimento de alfabetização”, contou. Desde 1996, Maria atua na educação de jovens e adultos. Também integrou o Movimento de Alfabetização (MOVA) em São Carlos e, em 2023, foi convidada para assumir a gestão da EJA na Secretaria Municipal de Educação. Atualmente, além de professora de educação infantil, é gestora da modalidade no município e articuladora regional do Pacto Nacional pela Superação do Analfabetismo e Qualificação da EJA, iniciativa do Ministério da Educação (MEC). Hoje, ao visitar núcleos de alfabetização, ela compartilha a própria história como forma de inspirar. “Muitos dizem: ‘Se você conseguiu, eu também vou conseguir’”, contou. A educadora Maria Alice com a caneta na mão fazendo o que mais gosta: alfabetizar jovens e adultos da região Arquivo pessoal Resistência, sonhos e transformações Para muitos alunos, aprender e ter acesso à educação significa ganhar autonomia no dia a dia, poder reconhecer o próprio nome, se localizar na cidade e não depender mais de outras pessoas para tarefas básicas. "Eu sempre falo, olha, é um direito seu, né? É um direito que foi negado. E é importante que você esteja dentro do do espaço escolar, né? Independente da sua idade", disse. Mulher negra, de origem rural, ela reconhece os desafios enfrentados ao longo do caminho, do preconceito estrutural às desigualdades sociais. Ela defende a resistência e o sonho como pilares fundamentais no dia a dia. Para a educadora, a vida só faz sentido quando é possível ser luz na vida de outras pessoas. E é isso que ela tenta fazer todos os dias, seja na sala de aula, na gestão pública e em cada história que ajuda a transformar por meio da educação. “A gente sempre vai ter uma pedra no caminho. Mas não pode fazer dessa pedra o motivo para interromper os sonhos. As mulheres já provaram que são guerreiras.e seguimos conquistando espaço e resistindo, mesmo diante da violência que ainda enfrentamos. A nossa força está dentro de cada uma de nós, e a palavra hoje é resistência", conclui. REVEJA VÍDEOS DA EPTV CENTRAL: Veja mais notícias da região em g1 São Carlos e Araraquara
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